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Programa do Concerto

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Horário do Museu

De quarta a segunda feira entre as 10h00 e as 13h00 e das 14h00 às 17h00

"Poner Obras" Intabulações ibéricas para tecla e harpa

Área da Música Antiga da ESML

 

Joana Bagulho

Cravo

Maria Bayley

Canto e harpa

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"Pôr obras de canto de órgão no monocórdio é a origem e fonte de onde nascem e procedem todos os frutos e proveitos e toda a arte do tocar para os tocadores..." Tomás de Santa Maria- I, ff.52

Download do Programa de Concerto

Sinopse
O programa é centrado nas intabulações para tecla, harpa e vihuela de canções francesas e Madrigais do século XVI, e ainda em música presente no manuscrito musical 242 da Universidade de Coimbra, conjugando versões vocais e instrumentais.

O programa do concerto centra-se principalmente na fonte de música instrumental ibérica: Obras de música para tecla, arpa y vihuela de Antonio de Cabezón, músico de câmara e capela de Felipe II, publicado em Madrid em 1578, e editado pelo seu filho Hernando de Cabezón doze anos após a morte do compositor. Grande parte do conteúdo destas fontes consiste em intabulações de música vocal, tanto litúrgica como vernacular, francesa e italiana, copiadas a partir de fontes impressas na Flandres e em Itália, com repertório vocal de vários autores, como Thomas Crecquillon, Clemens non papa, Orlando di Lasso, entre muitos outros.

Esta música servia de modelo para a aprendizagem instrumental e composicional através da prática da intabulação - ou seja, a transcrição de peças vocais, originalmente impressas em livros de partes ou de coro, para um formato notacional que apresenta a composição polifónica alinhada verticalmente, utilizado pelos instrumentistas de tecla e cordas pulsadas. As fontes vocais impressas, evidenciam claramente a possibilidade de serem cantadas e tocadas por instrumentos, como indicam os próprios títulos: "convenables tanto aux instruments comme a la voix". Podemos presumir que a maior parte desta música entabulada fazia parte de um conjunto das peças vocais mais célebres dos compositores franco-flamengos e italianos do século XVI. Uma grande parte da música incluída na publicação de Cabezón consiste em intabulações ornamentadas de chansons e madrigais- chamados Glosados, que tiveram uma enorme importância no desenvolvimento da música instrumental. Os glosados de Antonio e Hernando de Cabezón constituem um repertório muito desafiante para os intérpretes, devido à dificuldade de leitura da edição em cifra ibérica e à escassez de edições modernas que apresentem a sua totalidade em partitura de tecla. Trata-se de um conjunto de peças magistralmente ornamentadas que apresentam dificuldades técnicas consideráveis para os instrumentistas. No programa apresentamos um glosado de Palero, presente no Libro de cifra nueva de Luis Venegas de Henestrosa (Alcalá de Henares,1557). Henestrosa sugere no prefácio que este repertório se destina não apenas aos instrumentos de Tecla, Harpa ou Vihuela, mas também a ser cantado e acompanhado por um instrumento, ou mesmo executado por ensembles instrumentais. Os Glosados de chansons e madrigais a quatro e cinco vozes de Hernando e Antonio de Cabezón são apresentados em várias formações, solo instrumental, juntamente com a sua versão vocal ou em conjunto instrumental: harpa e cravo.

Inclui-se também neste programa, chansons e madrigais presentes no manuscrito MM 242 e também um tiento sobre o vilancico “con qué la lavaré la flro de mi cara”. Este manuscrito, copiado no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, um dos grandes centros de cultura da Península Ibérica, atesta a presença de música profana polifónica na sua prática musical. A actuação dos cantores nas cerimónias não se limitava à música litúrgica “o tempo era gasto em “cantar motetes & cançonetas, & em tocar diversos instrumentos musicos”
(Dom Nicolau de S.ta Maria, P II, cap. XXI, Liv. VII, pág. 87). O repertório de carácter profano, estava em voga, e era por vezes um grande motivo de assiduidade das pessoas às igrejas. A Definição Capicular de 1776, denuncia uma intensa actividade musical de feição profana no Mosteiro de Santa Cruz: proibindo a qualquer religioso da congregação de “cantar cantigas profanas no mosteiro nem fora dele sob pena de culpa grave”.

O concerto insere-se numa programação que resulta de uma parceria entre o Museu do Convento dos Cardaes e a Área da música antiga da Escola Superior de Música de Lisboa e ainda o CECH/ projecto Mundos e Fundos-Mundos metodológico e interpretativo dos Fundos Musicais da faculdade de letras da Universidade de Coimbra.

Concerto no Ovo, (atribuído a um seguidor ainda anônimo de Bosch) A atribuição moderna da pintura baseou-se numa análise da música no livro de coro, que mostra a notação da canção Toutes les nuictz de Thomas Crecquillon, de 1549. Palais des Beaux-Arts de Lille

 
Programa de Concerto

Quand me souvien de ma triste fortune
Thomas Crecquillon A quatro vozes (MM242) 

Quand me souvien de ma triste fortune
Quand me souvien de ma triste fortune
Que jay perdu de mes yeulx le foulas
Plaindre my fault ma trop grand infortune

Dont nyct et jiour
me convient dire helas,
triste fortune

Quando me lembro da minha triste sorte
Quando me lembro da minha triste sorte,
Que perdi, dos meus olhos, o fulgor,
Devo queixar-me da minha grande desventura.

Por isso, noite e dia
Me convém dizer: ai de mim,
triste sorte!

Qui la dira la peine de mon cœur
Adrian Willaert/ Cabezon (Transcrição de Joana Bagulho baseada no Glosado de A. Cabezon A cinco vozes

Qui la dira, la peine de mon cueur
Qui la dira, la peine de mon cueur,
Et la douleur que pour mon amy porte?
Je ne soubstiens que tristesse et langueu
J’aymeroys mieulx certes en estre morte.
 
Pour bien servir je suis plaine de pleur
A mon coucher je n’ay qui me conforte
Mon visage ne tient plus sa couleur,
C’est pour mourir, qu’il n’a ou se deporte.
 
Vrays amoureux souffrent beaucoup de maulx
Par Faulx Rapport pensant de douleur mainte
Il convient dire leurs pensemens loyaulx
La bonne amour ne va jamais sans crainte.
 
Or plust a Dieu pour mon bien advenir
Que vous et moy fusions couchez ensemble
Dedans ung lit pour nous y resjouyr
Ce me seroit ung grant bien, ce me semble.
 
O Cupido, comme prens tu plaisir
Noz cueurs noyer par si grande souffrance
Sans nous donner aulcunement loisir
D’estre ensemble pour parler a plaisance?

Quem dirá a dor do meu coração
Quem dirá a dor do meu coração,
E o tormento que por meu amigo tenho?
Não sustenho senão triste aflição;
Melhor quisera, por certo, já ser morta.
 
Por bem servir me vejo em pranto e dor;
Ao deitar-me, não há quem me conforte.
Meu rosto já perdeu seu primo
Pois quer morrer, não tendo onde se apoie.
 
Os verdadeiros amores sofrem males,
Por falso dito e dura desventura;
Cumpre dizer seus pensamentos leais,
Pois bom amor nunca vai sem mistura.
 
Praza a Deus, por meu bem desejado,
Que vós e eu fôssemos juntos deitados,
Num só leito, folgando alegremente;
Fora-me grande bem, por certo estado.
 
Ó Cupido, como tomas prazer
Em nossos corações fazer penados,
Sem nos dar tempo algum de nos rever,
E juntos falar de nossos cuidados?

Cancion del Emperador /Mille regretz
Josquin des Prez/glosado de Luys de Narvaez A quatro vozes

Mille regretz
Mille regretz de vous abandonner
Et d'eslonger vostre fache amoureuse,
Jay si grand dueil et paine douloureuse,
Quon me verra brief mes jours definer

Mil desgostos
Mil desgostos por vos abandonar
E por me afastar do vosso rosto amoroso.
É tão grande a dor e o sofrimento tão penoso,
Que breve se verá o fim dos meus dias.

Pis ne me peult venir
Thomas Crecquillon/ A. Cabezon A cinco vozes
 
Pis ne me peult venir
que j'ay jusques cy,
pour vostre souvenir
je languis en soucy,
et suis loing de mercy,
traicté trop durement,
vostre cueur endurchy
me donne ce tourment.

Pior não me pode vir
Do que já me tem vindo a mim;
Por vossa lembrança
Definho em tristeza sem fim.
De mercê estou tão longe,
Tratado mui cruelmente;
Vosso coração tão duro
Dá-me tormento ingente.

Mort m’a privé
Thomas Crequillon/ Palero (Venegas) A quatro vozes
 
Mort m’a prive
Mort m’a privé par sa cruell’envye
d’ung medecin cognoissant ma nature,
Et m’a remis en si grand frenesye
qu’en peu de temps j’ay bien changé pasture.
Riens me my vault ma grand progeniture;
Vertu me couvre armée de patience,
Divin voloir passe humaine science.

A Morte, por cruel e vã inveja
A Morte, por cruel e vã inveja,
Privou-me de quem bem me conhecia;
E pôs-me em tão mortal fraqueza e peja,
Que em pouco tempo a vida me fugia.
De nada vale a nobre parentia;
A virtude me cobre em paciência;
Que a vontade de Deus, por sabedoria,
Sempre vence a ciência da ciência

Canção Clemens non Papa
A. Cabezon A quatro vozes

Je prens en grey
Thomas Crecquillon/ A. Cabezon A quatro vozes

Je prends en grey
Je prends en gré la dure mort,
pour vous madame par amours,
navré m'avez mais à grand tort
dont brief je finiray mes jours.
 
La chose me vient à rebours,
souffrir si tost la mort amère,
O dure mort, que faictes vous,
mourir me fault, c'est chose claire.

Aceito de boa mente a dura morte
Aceito de boa mente a dura morte,
Por vós, senhora, por amores,
Ferido me tendes, mas com grande erro,
Pelo qual em breve terminarei meus dias. 
 
Esta coisa vem-me ao contrário,
Sofrer tão cedo a amarga morte.
Ó dura morte, que fazeis vós?
Morrer-me é forçoso, isto é coisa clara.

Per pianto la mia carne
Orlando di lassus A quatro vozes (MM242) 
 
Per pianto la mia carne
Montano.
Per pianto la mia carne si distilla,
Sì com’ al sol la neve,
O com’ al vento si disfa la nebbia.
Né so che far mi debbia.
Hor pensate al mio mal, qual esser deve.
Uranio.
Hor pensate al mio mal, qual esser deve;
Che come cera al foco
O come foco in acqua mi disfaccio;
Né cerco uscir dal laccio;
Sì m’è dolce il tormento, e ’l pianger gioco;
Montano.
Sì m’ è dolce il tormento, e ’l pianger gioco:
Ch’io canto, suono e ballo.
E cantando e ballando al suon languisco,
E seguo un basilisco:
Così vuol mia ventura, over mio fallo.
Uranio.
Cosi vuol mia ventura, over mio fallo;
Che vo sempre cogliendo
Di piaggia in piaggia fiori, e fresche herbette
Trecciando ghirlandette;
E cerco un tigre humiliar piangendo.

Pelo pranto, minha carne se destila
Montano.
Pelo pranto, minha carne se destila,
Como a neve ao sol se vai perdendo,
Ou como a névoa ao vento vai fugindo.
Nem sei que fazer, tão me confundo.
Ora pensai qual meu mal há de ser.
Uranio.
Ora pensai qual meu mal há de ser;
Pois como a cera ao fogo se consome,
Ou como o lume em água se desfaz,
Não curo de fugir do laço audaz;
Que o tormento me é doce, e o pranto apraz.
Montano.
Que o tormento me é doce, e o pranto apraz:
Que canto, danço e toco com folguedo,
E ao som languendo, canto e danço em festa,
E sigo um basilisco em viva gesta:
Assim quer minha sorte, ou meu degredo.
Uranio.
Assim quer minha sorte, ou meu degredo;
Que ando sempre colhendo em campos floridos
Flores e ervas frescas de mil cores,
Trazendo guirlandinhas de amores,
E choro, buscando amansar um tigre atrevido.

La cortesia
Orlando di lassus A quatro vozes (MM242)

La cortesia
La cortesia voi, donne, predicate
ma mai non l’osservate, vi so dire:
Voi lo vedete s’è come dico io?
Sol ch’io ti parlo, dici: "va' con Dio!"
La cortesia voi, donne, predicate
ma mai non l’osservate, vi so dire:
Se la dicete perchè non me amate
et hai pietà di tanto mio martire?
La cortesia voi, donne, predicate
ma mai non l’osservate, vi so dire:
Quando vi tengo mente, ve n’entrate,
e senza causa me vòi far morire.
La cortesia voi, donne, predicate
ma mai non l’osservate, vi so dire:
Va', figlia mia, se vòi predicare
l’opere bone, ti bisogna fare.

A cortesia
Vós outras, donzelas, à cortesia louvais,
Mas nunca a guardais, bem vos posso dizer:
Vedelo vós, se falo de veras, ou não?
Mal vos falo eu, logo dizeis: "Ide com Deus!"
Vós outras, donzelas, à cortesia louvais,
Mas nunca a guardais, bem vos posso dizer:
Se o dizeis porquanto não me tendes amor,
E tendes dó de meu penoso sofrer:
Vós outras, donzelas, à cortesia louvais,
Mas nunca a guardais, bem vos posso dizer:
Quando em vós cuido, logo vos esvai,
E sem razão quereis-me a vida tolher.
Vós outras, donzelas, à cortesia louvais,
Mas nunca a guardais, bem vos posso dizer:
Ide, filha minha, se quereis doutrinar,
Obras boas deveis, antes de pregar.

Dormend’un giorno - Verdelot
Philippe Verdelot/ A. Cabezon A cinco vozes

Dormend’ um giorno
Dormend'un giorn'a Baia'll' ombr'amore,
dove'l murmur de fonti più gli piacque,
corser ne Nimph'a vendicar l'ardore,
e la face gl'ascosen sotto l'acque,
ch'il crederebbe dentr'a quel liquore,
subitament'etterno foco nacque,
ond'a quei bagni sempr'il caldo dura,
che la fiamma d'amor acqua non cura.

Dormindo um dia
Dormindo um dia em Baia à sombra d’Amor,
onde o murmúrio das fontes mais lhe praz,
correram Ninfas a vingar tal ardor,
e a tocha lhe esconderam sob a paz
das águas; quem cuidara que no humor
daquele licor súbito fogo jaz?
Donde em tais banhos sempre o quente dura,
que a chama d’amor água não procura.
 
Ancor che col partire
Cipriano de Rore/ A. Cabezon A quatro vozes

Ancor che col partire
Ancor che col partire
io mi sento morire,
partir vorrei ogn' hor, ogni momento:
tant' il piacer ch'io sento
de la vita ch'acquisto nel ritorno:
et cosi mill' e mille volt' il giorno
partir da voi vorrei:
tanto son dolci gli ritorni miei.

Embora ao partir
Embora ao partir eu me sinta morrer
Queria partir a toda a hora, em cada momento
Tal é o prazer que experimento
Da vida que alcanço no regresso:
E assim mil e mil vezes por dia partir de vós queria:
De tão doces que são os meus regressos.
 
Dulce memoire
Pierre Sandrin/ Hernando de Cabezon A quatro vozes

Doulce memoire
Doulce mémoire, en plaisir consommée;
O siècle heureux que cause tel savoir:
La fermetée de nous deux tant aimée
Qui à nos maux a su si bien pourvoir
Or maintenant a perdu son pouvoir
Rompant le but de ma seule espérance
Servant d’exemple à tous piteux à voir
Fini le bien, le mal soudain commence
 
Doce memória
Doce memória, em prazer consumida,
Ó tempos felizes que causa tal saber!
Firme amizade, por nós dois tão sentida,
Que os nossos males soube solucionar;
Ora agora perdeu o seu poder,
Destroçando a minha única esperança;
Que sirva de exemplo a todos, por digno de piedade:
Findo o bem, logo o mal começa

Un gay bergier 
Thomas Crecquillon/ A. Cabezon A quatro vozes
 
Un gay bergier
Ung gay bergier prioit une bergiere
En luy faisant du jeu d'aymer requeste
«Allez, dit-elle, et vous tirez arriere
Voster parler me semble peu honeste.»
Et luy dessus la bergiere fretille
«Hau hau tout beau, dit il, la belle fille
Laissez courir la bague a mon courtault»
«Vous n'estes pas, dit elle, assez habille
Et n'avez pas la lance qu'il y fault.

Um pastor
Um pastor ledo à moça requeria,
Em jogo d’amor lhe faz cortesia:
“Vinde, gentil, não sejais tão severa!”
“Recuai, — diz ela — e ide à vossa espera,
Que o vosso falar me soa desonesto.”
Rindo, o pastor responde-lhe modesto:
“Eh! eh! mais branda, minha bela flor!
Deixai correr o jogo ao meu fervor!”
“Não sois, — diz ela — hábil no combate,

Con que la lavaré la flor de mi cara
António Carreira/MM 242 com a quinta voz de fora

Con que la lavaré-Vilancico
Con que la lavaré
la flor de la mi cara
con que la lavaré
que bivo mal penada
Lavanse las casadas con agua de limones
Lavome yo cuitada
con ansias y dolores
Con que la lavaré
que bivo mal penada

Com que a lavarei
Com que a lavarei
a flor do meu rosto?
com que a lavarei,
que vivo mui penada?
Lavam-se as casadas com água de limões;
lavo-me eu, coitada,
com ânsias e dores.
Com que a lavarei,
que vivo mui penada?

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